Déficit
da previdência é fraude
14.01.2017
| Fonte de informações:
Economista e professor lança provocação aos
governistas e a qualquer um: debater o suposto déficit da Previdência
Social.
Governo faz propaganda de déficit que não existe
J. Carlos de Assis*
O Governo Temer está gastando milhões de reais em propaganda a fim de
convencer o povo brasileiro de que a Previdência Social tem um grande déficit e
precisa urgentemente de reformas profundas que atingem direitos adquiridos dos
trabalhadores. A alegação de que há um grande déficit previdenciário é falsa.
Na verdade, a Previdência não tem déficit nenhum, é superavitária. O propósito
da propaganda de televisão é dúbio. Pode ser simplesmente dar dinheiro
para a TV Globo, ou disseminar a ideologia do déficit.
Como um governo pode mentir tanto, para tantos e
durante tanto tempo?
Simples,
manipulando os conceitos constitucionais de Previdência e de Seguridade Social.
Previdência Social é o sistema contributivo tradicional. Para ele contribuem
todo trabalhador do setor privado, assim como os autônomos. Chama-se,
apropriadamente, de Previdência contributiva. Se olharem as contas, tem sido
superavitário por anos e décadas. É um mecanismo de solidariedade entre
gerações: os ativos pagam pelos inativos.Seguridade Social envolve também a
parte não contributiva do sistema do lado patronal. É o caso da aposentadoria
do setor público, saúde, aposentadoria rural e assistência. Embora não sejam
integrantes do sistema contributivo, a Constituição criou fontes de
financiamento para eles, notadamente contribuição dos servidores, contribuição
sobre lucro líquido, Finsocial, receita de loterias etc. Em algum momento a
CPMF integrou esse sistema de financiamento, mas os bancos e os grandes
interesses conseguiram revogá-la.
Qual é, pois, a origem da manipulação?
Consiste em somar todos os
benefícios da Seguridade Social e compará-los ao financiamento exclusivo da
Previdência Social. Claro, aparecerá um déficit gigantesco porque a Previdência
não foi criada para sustentar todo o sistema de seguridade, mas apenas o sistema
contributivo privado. A outra parte, não tendo financiamento específico, deve
ser financiada pelas contribuições da seguridade em geral e, quando isso não é
suficiente, por recursos do Tesouro Nacional.
Essa questão não é apenas contábil. É a fonte de distorção da proposta de reforma previdenciária defendida pelo governo e pelos asseclas do grande capital que estão de olho na privatização da Previdência como fizeram no Chile, destruindo o sistema público. Os trabalhadores terão de resistir a isso, do contrário não terão cobertura previdenciária na velhice. Além disso, se a proposta colocada pelo governo supostamente protege direitos adquiridos, podem se preparar, na frente, para uma segunda etapa, na qual esses direitos também desaparecerão. Portanto, é fundamental resistir já, agora!Sugiro que a resistência não se restrinja a lobbies no Congresso Nacional. Isso é importante, mas não basta. Os trabalhadores poderiam, por exemplo, procurar juristas respeitados e entrar imediatamente com uma ação de improbidade administrativa contra o governo a fim de sustar a publicidade do déficit previdenciário na televisão, que pode ser classificado como propaganda enganosa. Isso teria um caráter pedagógico importante. Se quiserem, darei uma assessoria informal, gratuita. Acho que a professora Denise Gentil, a maior especialista brasileira em Seguridade Social, também dará.
Note-se que, além de manipular as contas da Seguridade, o governo rouba - e isso vem de longe - através de contingenciamentos, recursos que seriam dirigidos constitucionalmente para seu financiamento. Esse "roubo" sistemático, que vem desde o Governo do ratagão "FHC", é destinado a pagar juros da dívida pública, de acordo com os mecanismos fiscais socialmente perversos introduzidos nas finanças públicas brasileiras desde a inominável Lei de Responsabilidade Fiscal, da qual fui um dos principais críticos na época de sua aprovação, e que agora está destruindo estados e prefeituras.
No meu caso, aceito qualquer debate sobre déficit
da Seguridade e da Previdência com qualquer pessoa de dentro ou de fora do
governo. Pode
ser economista da PUC, pode ser economista de banco, pode ser contabilista,
pode ser comentarista de jornal: aceita-se o contraditório, coisa que do lado
de lá nunca fazem.
Tenho
mais de 40 anos de experiência em economia política, mais de 20 livros
publicados, mais de 5 mil artigos em grandes jornais, e, mais recentemente, na
internet: jamais
vi, em minha vida profissional, maior tentativa de manipulação do povo do que
essa publicidade de déficit previdenciário como matéria paga pela televisão.
*J. Carlos de Assis é Jornalista, economista, do
Conselho Editorial do Monitor Mercantil, coordenador do Movimento Brasil
Agora.
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