quinta-feira, 27 de julho de 2023

Lava Jato burlou soberania ao agir em conluio com EUA por dinheiro da Petrobras, diz jurista

Lava Jato burlou soberania ao agir em conluio com EUA por dinheiro da Petrobras, diz jurista



A Polícia Federal anunciou que fará pente-fino nas operações financeiras realizadas pela Lava Jato, acusada de ter agido em conluio com os EUA para repartir recursos da Petrobras. A Sputnik Brasil conversou com especialistas para entender qual o papel de Washington e as implicações jurídicas para os procuradores da Lava Jato.

Nesta semana, o ministro da Justiça, Flávio Dino, acionou a Polícia Federal para apurar indícios de conluio entre procuradores da Operação Lava Jato e autoridades estrangeiras para repartir recursos da Petrobras.
"Encaminhei hoje à Polícia Federal o caso dos acordos feitos por procuradores com outros países, sem o procedimento legal. O objetivo é a investigação sobre a origem e o destino de bilhões de reais e os motivos que levaram a tais acordos com autoridades estrangeiras", escreveu Dino nas redes sociais.
A decisão veio após a revelação de diálogos nos quais Dallagnol negociava com autoridades dos Estados Unidos e da Suíça a repartição dos recursos oriundos de multas impostas contra a Petrobras no âmbito da Operação Lava Jato. As negociações eram conduzidas pelo aplicativo de mensagens Telegram, evitando os canais oficiais previstos em lei, conforme apuraram os jornalistas Leandro Demori e Jamil Chade.
Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato concedem coletiva no auditório do Ministério Público Federal no Paraná (MPF), em Curitiba (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2023
Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato concedem coletiva no auditório do Ministério Público Federal no Paraná (MPF), em Curitiba (foto de arquivo)
De acordo com os diálogos, incluídos nos arquivos da Polícia Federal no âmbito da Operação Spoofing, Dallagnol reporta aos seus colegas suíços o andamento das negociações com autoridades dos EUA sobre a repartição do dinheiro.
"Meus amigos suíços, acabamos de ter uma reunião introdutória de dois dias com a SEC [Comissão de Valores Mobiliários] dos EUA. Tudo é confidencial, mas eu disse expressamente a eles que estamos muito próximos da Suíça e eles nos autorizaram a compartilhar as discussões da reunião com vocês", escreveu Dellagnol.
Ao detalhar os temas tratados na reunião com os norte-americanos, Dallagnol relata casualmente que "o Departamento de Justiça dos EUA e a SEC aplicarão uma penalidade enorme à Petrobras", mas disseram que "se a Petrobras pagar algo ao governo brasileiro em um acordo, eles creditariam isso para diminuir sua penalidade, e que o valor poderia ser algo como 50% do valor do dinheiro pago nos EUA".
Esferas de armazenamento de gás liquefeito de petróleo (GLP) da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), da Petrobras. Duque de Caxias (RJ), 20 de março de 2013 - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2023
Esferas de armazenamento de gás liquefeito de petróleo (GLP) da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), da Petrobras. Duque de Caxias (RJ), 20 de março de 2013
montante seria destinado a um fundo privado que o Ministério Público Federal (MPF) do Paraná planejava criar para gerir os recursos obtidos em função da Operação Lava Jato. Isto é, a operação buscava utilizar o seu poder de investigação para angariar fundos para si própria, em prejuízo da empresa brasileira. A instauração do fundo privado dos procuradores de Curitiba, no entanto, foi suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com o advogado e autor do livro "Geopolítica da Intervenção", sobre a participação dos EUA na Operação Lava Jato, Fernando Augusto Fernandes, membros da Lava Jato auxiliaram autoridades norte-americanas a coletar elementos contra a Petrobras.
"Eles burlaram a soberania nacional para que esses procuradores [dos EUA] fossem a Curitiba e interrogassem os réus e delatores da Petrobras, entregando em solo brasileiro elementos que viabilizaram a imposição de multas bilionárias à empresa", disse Fernandes à Sputnik Brasil. "Eles se mancomunaram com autoridades dos EUA para que a Petrobras fosse multada."
Os procuradores chegaram a entregar documentos sigilosos sobre a empresa brasileira, ferindo não só princípios da administração pública, mas também segredos comerciais da Petrobras, revelou Fernandes.
Sergio Moro e Deltan Dallagnol, procurador federal e coordenador da Lava Jato no MPF, participam do Fórum Mãos Limpas & Lava Jato (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2023
Sergio Moro e Deltan Dallagnol, procurador federal e coordenador da Lava Jato no MPF, participam do Fórum Mãos Limpas & Lava Jato (foto de arquivo)
No diálogo clandestino com autoridades suíças, Dallagnol diz que sua intenção é proteger a imagem da Lava Jato, a sociedade brasileira e a própria Petrobras.
"Eles [os norte-americanos] não precisariam de nossa cooperação, mas isso pode facilitar as coisas e, se cooperarmos, entendemos que não causaremos nenhum dano e poderemos trazer algum benefício para a sociedade brasileira, que foi a parte mais prejudicada (e não os investidores dos EUA). Como estávamos preocupados com uma penalidade enorme para a Petrobras, muito maior do que tudo o que recuperamos no Brasil, e preocupados com o fato de que isso poderia prejudicar a imagem de nossa investigação e a saúde financeira da Petrobras, pensamos em uma solução possível, mesmo que não seja simples", escreveu Dallagnol.
Para o advogado membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) e professor da Universidade Cândido Mendes (UCAM), Sérgio Sant'Anna, o argumento exposto pelo ex-procurador "não faz nenhum sentido".
"Esse argumento só teria lógica, se estivéssemos pensando nos interesses particulares desses agentes, que buscam justificar as inúmeras ilegalidades que cometeram durante a operação", disse Sant'Anna à Sputnik Brasil. "Se ele realmente tivesse essa preocupação, as negociações teriam que ter sido oficializadas junto ao Estado brasileiro e percorrido as instâncias do MPF."
O advogado ainda nota os prejuízos diretos e indiretos que a Operação Lava Jato gerou na economia brasileira, comprovados em relatório da Comissão de Direito Constitucional do Instituto dos Advogados Brasileiros.
Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.  - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2023
Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.
"O relatório prova o prejuízo causado ao Estado brasileiro, à cadeia produtiva da Petrobras, à geração de empregos, à arrecadação e atividade econômica do país", relatou Sant'Anna. "Dizer que isso foi feito para proteger a Petrobras e a sociedade é realmente um escárnio."
O jurista ainda lembra que "todos os brasileiros concordam que precisamos de investigações para o combate a corrupção e irregularidades. Isso é uma missão do Ministério Público que todos nós apoiamos. Mas não podemos combater a corrupção com corrupção. Combater irregularidades à margem da Constituição e do devido processo legal".

Influência dos EUA

A revelação de conluio entre procuradores e autoridades estrangeiras recoloca a influência dos EUA na Operação Lava Jato no topo da agenda.
Em seu livro "Geopolítica da Intervenção", o advogado Fernando Fernandes revela que a Operação Lava Jato foi um aperfeiçoamento das estratégias norte-americanas de intervenção na política doméstica brasileira.
"Essas estratégias tiveram início junto aos militares brasileiros, no âmbito da Doutrina de Segurança Nacional, que culminou no golpe militar de 1964", explicou Fernandes. "Posteriormente, tivemos a fase de influência sob a égide DEA [Administração de Fiscalização de Drogas dos EUA], no âmbito da Guerra às Drogas."
Em 2009, os EUA inauguraram o Projeto Pontes, com o objetivo de cooptar procuradores e juízes brasileiros, conforme detalhou telegrama entre autoridades norte-americanas revelado pelo site WikiLeaks.
O senador Sergio Moro (União Brasil-PR)(D), ao lado do deputado federal Deltan Dallagnol (Podemos-PR) (E) no plenário do Senado Federal, em Brasília, 23 de março de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2023
O senador Sergio Moro (União Brasil-PR)(D), ao lado do deputado federal Deltan Dallagnol (Podemos-PR) (E) no plenário do Senado Federal, em Brasília, 23 de março de 2023
"Os telegramas chegam a dizer que o projeto foi um sucesso, já que grande número de procuradores e juízes brasileiros se portariam contra o governo brasileiro e passariam a encabeçar forças-tarefas em São Paulo, Brasília e Paraná", revelou Fernandes. "No final, a força-tarefa que vingou foi a do Paraná, se transformando na Operação Lava Jato."

Consequências para Dallagnol?

As revelações sobre o conluio de Dallagnol com autoridades de EUA e Suíça reforçam elementos já revelados pelas conversas entre procuradores obtidas pelo portal Intercept Brasil, no âmbito da Vaza Jato. As consequências jurídicas para os agentes da operação, no entanto, deixam a desejar.
"Espero que, dessa vez, tenhamos uma investigação real", disse o advogado. "Esses assuntos são estratégicos para o desenvolvimento nacional e não podem se limitar a denúncias feitas nas páginas dos jornais", disse o advogado.
Para Fernandes, Dallagnol e os demais procuradores deveriam ser processados por quebra de sigilo de documentos sobre a Petrobras e responsabilizados civilmente pelas vultuosas multas aplicadas contra a empresa.
"Também defendo que os diálogos entre procuradores [no Telegram] são provas lícitas contra autoridades que cometeram abusos, apesar de terem sido obtidas por hackers. A ilicitude da prova serve para proteger o cidadão perante o Estado, e não para proteger autoridades públicas de abuso", argumentou Fernandes.
Nesta terça-feira (25), o portal UOL reportou que a Polícia Federal (PF) fará um pente-fino em todas as movimentações financeiras realizadas conduzidas por contas bancárias abertas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, que ainda estão em operação e sob gestão do judiciário relacionadas à Operação Lava Jato.



quinta-feira, 20 de julho de 2023

Lava Jato: Dallagnol negociou em sigilo com os Estados Unidos divisão de dinheiro cobrado da Petrobrás

 


Lava Jato: Dallagnol negociou em sigilo com os Estados Unidos divisão de dinheiro cobrado da Petrobrás

O então procurador conduziu negociações secretas com autoridades estadunidenses para definir a divisão dos valores que seriam cobrados da Petrobrás em multas e penalidades

Durante um período de mais de três anos, o ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol conduziu negociações secretas com as autoridades dos Estados Unidos para estabelecer um acordo sobre a divisão dos valores que seriam cobrados da Petrobrás em multas e penalidades decorrentes de casos de corrupção, revelam Jamil Chade, do UOL, e Leandro Demori. Essas negociações não contaram com a participação da CGU (Controladoria-Geral da União), órgão competente por lei para tais questões.

As conversas ocorreram por meio do aplicativo Telegram e não foram oficialmente registradas, envolvendo procuradores suíços e brasileiros. Tais interações foram motivadas pelo papel das autoridades de Berna na busca, confisco e detalhamento das contas utilizadas como destino para as propinas investigadas no âmbito da Operação Lava Jato. No entanto, ambos os lados consideraram estratégico envolver também a Justiça dos Estados Unidos, que estava conduzindo sua própria investigação sobre o caso.

Os diálogos foram apreendidos pela Polícia Federal durante a operação Spoofing, uma investigação relacionada ao hackeamento de procuradores e do ex-juiz parcial e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR), no caso amplamente conhecido como Vaza Jato.

Em 29 de janeiro de 2016, Dallagnol comunicou aos suíços o resultado dos primeiros contatos estabelecidos por ele com as autoridades americanas, conforme revelado nos registros obtidos pela investigação: "meus amigos suíços, acabamos de ter uma reunião introdutória de dois dias com a SEC (Comissão de Valores Mobiliários) dos EUA. Tudo é confidencial, mas eu disse expressamente a eles que estamos muito próximos da Suíça e eles nos autorizaram a compartilhar as discussões da reunião com vocês".

Na sequência, Dallagnol resume a reunião: "Proteção às testemunhas de cooperação: eles protegerão nossos cooperadores contra penalidades civis ou restituições; Penalidades relativas à Petrobrás. O pano de fundo: O DOJ e a SEC aplicarão uma penalidade enorme à Petrobrás, e a Petrobrás cooperou totalmente com eles. Eles não precisariam de nossa cooperação, mas isso pode facilitar as coisas e, se cooperarmos, entendemos que não causaremos nenhum dano e poderemos trazer algum benefício para a sociedade brasileira, que foi a parte mais prejudicada (e não os investidores dos EUA). Como estávamos preocupados com uma penalidade enorme para a Petrobrás, muito maior do que tudo o que recuperamos no Brasil, e preocupados com o fato de que isso poderia prejudicar a imagem de nossa investigação e a saúde financeira da Petrobrás, pensamos em uma solução possível, mesmo que não seja simples. Eles disseram que se a Petrobrás pagar algo ao governo brasileiro em um acordo, eles creditariam isso para diminuir sua penalidade, e que o valor poderia ser algo como 50% do valor do dinheiro pago nos EUA".

Após mais de dois anos, a Petrobrás chegou a um acordo com os Estados Unidos, concordando em pagar uma multa de US$ 853,2 milhões para evitar processos judiciais. Esse acordo assegurou que 80% desse valor seria enviado ao Brasil, sendo que metade do montante seria destinado a um fundo privado, originalmente proposto pela Lava Jato, mas que não chegou a ser criado devido à suspensão determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). O fundo idealizado teria como destino a Amazônia. Contudo, atualmente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) está conduzindo uma investigação sobre a utilização dos recursos.

"Outras empresas internacionais: elas concordam em buscar um acordo conjunto. Mencionei que estamos caminhando junto com vocês e eles disseram que é possível coordenar um acordo conjunto com o Brasil e a Suíça quando ambos os países tiverem casos em relação à empresa… Ressaltei a importância das provas suíças em relação a muitas empresas. Se isso der certo, nós (suíços e brasileiros) poderemos tirar proveito dos poderes dos EUA para pressionar as empresas a cooperar e fazer acordos. Tudo isso foi discutido apenas com a SEC. Ainda temos que discutir com o DOJ. Se quiser, posso colocá-lo em contato direto com as autoridades da SEC e do DOJ com quem conversamos. Eles disseram que estão disponíveis", dizia outra mensagem de Dallagnol.

Naquele mesmo dia, o procurador brasileiro identificado como Douglas enviou uma extensa lista de contatos relacionados com casos de fraude. Dallagnol complementou essas informações com detalhes sobre cada um desses contatos.

As comunicações secretas entre membros da Lava Jato e procuradores estrangeiros não se limitaram apenas à Suíça. Em reportagens divulgadas pelo The Intercept Brasil em colaboração com a Agência Pública, diálogos e documentos revelaram a proximidade, as reuniões e as trocas ilegais de informações entre brasileiros e norte-americanos.

Deltan Dallagnol ocultou os nomes de, pelo menos, 17 agentes americanos que estiveram em Curitiba em 2015, sem conhecimento do Ministério da Justiça, que deveria ter sido informado. Entre esses agentes, havia procuradores norte-americanos vinculados ao Departamento de Justiça e agentes do FBI. Esses encontros e negociações ocorreram sem qualquer pedido formal de assistência e foram comprovados através de documentos oficiais do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, obtidos pelo Intercept, além dos diálogos da Vaza Jato. Durante essas conversas e visitas, os procuradores da Lava Jato sugeriram aos americanos formas de contornar uma decisão do STF que permitiria que os EUA interrogassem delatores da Petrobrás no Brasil. Essa troca de informações sem o conhecimento do Ministério da Justiça foi intensa. Com base nesses dados, posteriormente, agentes americanos ouviram no Brasil depoimentos de Nestor Cerveró e Alberto Youssef, entre outros, que foram utilizados para processar a Petrobrás nos Estados Unidos.

Deltan Dallagnol tinha plena consciência de que suas ações estavam à margem da lei. Em um diálogo datado de 11 de fevereiro de 2016, o procurador Vladimir Aras, então diretor da Secretaria de Cooperação Internacional (SCI) da Procuradoria-Geral da República (PGR), alertou o ex-líder da Lava Jato sobre os procedimentos que permitiam a atuação dos agentes americanos no Brasil. "Obrigado, Vlad, mas entendemos com a PF que neste caso não é conveniente passar algo pelo executivo", disse Dallagnol ao procurador, que rebateu: "a questão não é de conveniência. É de legalidade, Delta. O tratado tem força de lei federal ordinária e atribui ao MJ a intermediação. Estamos negociando com o Senado um caminho específico para os casos do MPF. Por ora, precisamos observar as regras vigentes".


sábado, 8 de julho de 2023

A América acabou de destruir um grande império

 

A América acabou de destruir um grande império

"Estamos presenciando a Maioria Global tentando criar uma escolha independente e negociada sobre que tipo de ordem internacional desejam", escreve o economista

Putin, Xi e Biden
Putin, Xi e Biden (Foto: Sputnik/Aleksey Druzhinin/Kremlin | REUTERS/Jonathan Ernst)


Por Michael Hudson, em seu blog – Heródoto (História, Livro 1.53) conta a história de Creso, rei da Lídia, por volta de 585-546 a.C., na região que hoje é a Turquia Ocidental e a costa jônica do Mediterrâneo. Creso conquistou Éfeso, Mileto e reinos vizinhos de língua grega, obtendo tributo e despojos que o tornaram um dos governantes mais ricos de sua época. Porém, essas vitórias e riquezas levaram à arrogância e à soberba. Creso voltou seu olhar para o leste, ambicionando conquistar a Pérsia, governada por Ciro, o Grande.

Após doar prata e ouro substanciais ao cosmopolita Templo de Delfos da região, Creso consultou o Oráculo para saber se seria bem-sucedido na conquista que havia planejado. A sacerdotisa Pitia respondeu: "Se você guerrear contra a Pérsia, destruirá um grande império".

Portanto, Creso partiu para atacar a Pérsia por volta de 547 a.C. Avançando para o leste, ele atacou a Frígia, estado vassalo da Pérsia. Ciro organizou uma Operação Militar Especial para repelir Creso, derrotou o exército de Creso, capturou-o e aproveitou a oportunidade para apoderar-se do ouro da Lídia e introduzir sua própria moeda de ouro persa. Assim, Creso realmente destruiu um grande império, mas foi o seu próprio império.

Avançando rapidamente para a atualidade, temos a iniciativa da administração Biden de estender o poder militar dos Estados Unidos contra a Rússia e, por trás disso, a China. O presidente pediu conselhos ao equivalente atual do oráculo de Delfos na antiguidade: a CIA e seus think tanks aliados. Em vez de alertarem contra a soberba, eles encorajaram o sonho neoconservador de que atacar Rússia e China consolidaria o controle dos EUA sobre a economia mundial, alcançando o Fim da História.

Após organizar um golpe de estado na Ucrânia em 2014, os Estados Unidos enviaram seu exército proxy da OTAN para o leste, fornecendo armas à Ucrânia para lutar uma guerra étnica contra sua população de língua russa e transformar a base naval da Crimeia em uma fortaleza da OTAN. Essa ambição ao estilo de Creso tinha como objetivo atrair a Rússia para o combate, esgotar sua capacidade de se defender, arruinar sua economia e destruir sua capacidade de fornecer apoio militar à China e a outros países que buscam autossuficiência como alternativa à hegemonia dos EUA.

Após oito anos de provocações, um novo ataque militar aos ucranianos de língua russa foi claramente preparado, pronto para avançar em direção à fronteira russa em fevereiro de 2022. A Rússia protegeu seus compatriotas de língua russa contra mais violência étnicamediante uma Operação Militar Especial própria. Os Estados Unidos e seus aliados da OTAN imediatamente apoderaram-se das reservas cambiais da Rússia mantidas na Europa e na América do Norte, e exigiram que todos os países impusessem sanções à importação de energia e grãos russos, na esperança de que isso desvalorizasse a taxa de câmbio do rublo. O Departamento de Estado esperava que isso provocasse uma revolta dos consumidores russos e a derrubada do governo de Vladimir Putin, permitindo que os EUA manobrassem para instalar uma oligarquia cliente semelhante àquela que nutriram na década de 1990 sob o presidente Yeltsin.

Um subproduto desse confronto com a Rússia foi a consolidação do controle dos Estados Unidos sobre seus satélites da Europa Ocidental. O objetivo dessa disputa intra-OTAN era frustrar o sonho da Europa de lucrar com relações comerciais e de investimento mais estreitas com a Rússia, trocando seus produtos industriais por matérias-primas russas. Os Estados Unidos impediram essa perspectiva ao sabotar os gasodutos Nord Stream, cortando o acesso da Alemanha e de outros países ao gás russo de baixo custo. Isso deixou a principal economia da Europa dependente de GNL (gás natural liquefeito) mais caro dos Estados Unidos.

Além de ter que subsidiar o gás doméstico europeu para evitar uma insolvência generalizada, uma grande proporção de tanques Leopard alemães, mísseis Patriot dos EUA e outras "armas maravilhosas" da OTAN estão sendo destruídos em combate contra o exército russo. Fica claro que a estratégia dos EUA não é simplesmente "lutar até o último ucraniano", mas sim lutar até o último tanque, míssil e outra arma deletada dos estoques da OTAN.

Esperava-se que essa redução dos armamentos da OTAN criasse um vasto mercado de substituição para enriquecer o complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Seus clientes da OTAN estão sendo instruídos a aumentar seus gastos militares para 3% ou até 4% do PIB. No entanto, o desempenho fraco das armas dos Estados Unidos e da Alemanha no campo de batalha ucraniano pode ter arruinado esse sonho, enquanto as economias europeias afundam em depressão. E, com a economia industrial da Alemanha perturbada pela interrupção de seu comércio com a Rússia, o ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, disse ao jornal Die Welt em 16 de junho de 2023 que seu país não pode se dar ao luxo de pagar mais dinheiro para o orçamento da União Europeia, onde tem sido o maior contribuinte há muito tempo.

Sem as exportações alemãs apoiando a taxa de câmbio do euro, a moeda ficará sob pressão em relação ao dólar à medida que a Europa compra GNL e a OTAN repõe seus estoques de armamentos esgotados comprando novas armas dos Estados Unidos. Uma taxa de câmbio mais baixa irá pressionar o poder de compra do trabalho europeu, enquanto aredução dos gastos sociais para pagar pelo rearmamento e fornecer subsídios de gás está afundando o continente em uma depressão.

Uma reação nacionalista contra a dominação dos Estados Unidos está surgindo em toda a política europeia, e em vez da América consolidar seu controle sobre a política europeia, os Estados Unidos podem acabar perdendo, não apenas na Europa, mas principalmente em todo o Sul Global. Em vez de transformar o "rúblo em ruína", como o presidente Biden prometeu, o saldo comercial da Rússia disparou e suas reservas de ouro aumentaram. O mesmo ocorreu com as reservas de ouro de outros países cujos governos agora estão buscando a desdolarização de suas economias.

É a diplomacia americana que está empurrando a Eurásia e o Sul Global para fora da órbita dos Estados Unidos. A busca hubrista dos Estados Unidos por uma dominação unipolar do mundo só poderia ter sido desmontada tão rapidamente de dentro. A administração Biden-Blinken-Nuland fez o que nem Vladimir Putin nem o presidente chinês Xi poderiam ter esperado alcançar em tão curto período. Nenhum deles estava preparado para enfrentar o desafio e criar uma alternativa à ordem mundial centrada nos Estados Unidos. No entanto, as sanções dos Estados Unidos contra Rússia, Irã, Venezuela e China têm tido o efeito de criar barreiras tarifárias protetoras para forçar a autossuficiência naquilo que o diplomata da UE, Josep Borrell, chama de "selva" fora do "jardim" dos Estados Unidos e da OTAN.

Embora o Sul Global e outros países venham reclamando da dominação dos Estados Unidos desde a Conferência de Bandung de Nações Não Alinhadas em 1955, eles não possuíam uma massa crítica para criar uma alternativa viável. Mas agora sua atenção foi focada pela confiscação dos Estados Unidos das reservas oficiais de dólares da Rússia em países da OTAN. Isso dissipou a ideia de que o dólar era um veículo seguro para manter poupanças internacionais. A apreensão anterior do Banco da Inglaterra das reservas de ouro da Venezuela mantidas em Londres - prometendo doá-las a quaisquer oponentes não eleitos do regime socialista designados pelos diplomatas dos EUA - mostra como a libra esterlina e o euro, assim como o dólar, têm sido utilizados como armas. A propósito, o que aconteceu com as reservas de ouro da Líbia?

Os diplomatas americanos evitam pensar nesse cenário. Eles dependem da única vantagem que os Estados Unidos têm a oferecer. Eles podem se abster de bombardeá-los, de promover uma revolução colorida para "Pinochetá-los" por meio da National Endowment for Democracy ou instalar um novo "Yeltsin" entregando a economia a uma oligarquia cliente.

Mas se abster de tal comportamento é tudo o que a América pode oferecer. Ela desindustrializou sua própria economia, e sua ideia de investimento estrangeiro é criar oportunidades de busca de renda monopolista concentrando monopólios tecnológicos e o controle docomércio de petróleo e grãos nas mãos de uma estreita classe financeira, como se isso fosse eficiência econômica, e não busca de renda.

O que ocorreu é uma mudança de consciência. Estamos presenciando a Maioria Global tentando criar uma escolha independente e negociada sobre que tipo de ordem internacional desejam. Seu objetivo não é apenas criar alternativas ao uso do dólar, mas sim um novo conjunto completo de alternativas institucionais ao FMI, ao Banco Mundial, ao sistema de compensação bancária SWIFT, à Corte Penal Internacional e a todo o conjunto de instituições que os diplomatas americanos sequestraram das Nações Unidas.

O resultado será de alcance civilizacional. Não estamos presenciando o Fim da História, mas sim uma nova alternativa fresca ao neoliberalismo financeiro centrado nos Estados Unidos e a sua economia lixo de privatização, guerra de classes contra o trabalho. A ideia de que o dinheiro e o crédito devem ser privatizados nas mãos de uma estreita classe financeira, em vez de serem um serviço público para financiar necessidades econômicas e elevar os padrões de vida, finalmente está enfrentando sua retribuição.

A ironia é que o papel histórico da América tem sido o de não conseguir liderar o mundo nessa direção, mas suas tentativas de aprisionar o mundo em um sistema imperial antitético, conquistando a Rússia nas planícies da Ucrânia e tentando isolar a tecnologia da China (para romper a tentativa dos EUA de ter um monopólio em TI), têm sido os grandes catalisadores que afastam a maioria global deles.