Eleições ao Parlamento Europeu são sindrome do descontentamento popular
Foto: REUTERS/Alkis Konstantinidis
A Europa, ao fazer balanço das eleições para o Parlamento Europeu em 22–25 de maio, ficou chocada. Na Grã-Bretanha e na França, os políticos e analistas, foram quase unânimes na opinião de que o escrutínio era um “abalo político”.
Os partidos radicais de direita e os de ânimos
anti-imigrantes e “eurocéticos”, ultrapassaram na Grã-Bretanha os
conservadores e trabalhistas e na França levaram melhor sobre os
socialistas e as forças de centro-direita. Em outros países
comunitários, as forças de direita e de esquerda radical viram alargada a
sua representação parlamentar. Por isso, essa foi, sem embargo, a maior
manifestação do descontentamento popular com o rumo político defendido
por Bruxelas e com a política dos seus respectivos governos.
Não
se pode dizer que as eleições tenham culminado com resultados
revolucionários absolutos. O Partido Popular Europeu (PPE), bancada de
centro-direita, ao receber 212 dos 751 mandatos, mantém a liderança
apesar de ver enfraquecidas as suas posições. O segundo lugar pertence,
como antes, à bancada de cariz socialista – a Aliança Progressista de
Democratas e Socialistas que mantém 186 assentos parlamentares. Mas a
questão não se resume às estatísticas. O que vale muito mais são os
ânimos das pessoas. E essa tendência desanima.
A partir
dai, quase um quarto de assentos pertencerá aos partidos radicais
nacionalistas. Eles estão em condições de formar uma fração e obter,
deste jeito, uma espécie de um “controle acionário” da minoria. No
Parlamento Europeu, ocorreu aquilo que pode acontecer numa orquestra em
que quase 25% dos músicos não sabem tocar e não prestam atenção ao
regente.
Os europeus não têm uma ideia clara sobre a
atividade do Parlamento Europeu. Para eles, as eleições autárquicas se
revestem de uma importância maior. As eleições para o Parlamento Europeu
foram, antes, um plebiscito sobre a política seguida por maiores
partidos da UE. E quase todos eles sofreram uma estrondosa derrota. Os
exemplos mais elucidativos são o Reino Unido e a França citados acima.
Segundo
enfatizou na ocasião o líder do Partido da Independência do Reino Unido
(UK Independence Party, UKIP), Nigel Farage, nas eleições passadas
foram alcançados resultados sem precedentes nos últimos 100 anos. O seu
partido terá no Parlamento Europeu mais lugares do que os conservadores e
trabalhistas britânicos. Nunca antes, estes últimos tinham ficado
suplantados por algum outro partido em escala nacional.
“Não
surpreende muito o fato de isto ter acontecido. Surpreende mais que
isto não tenha acontecido antes. Três maiores partidos (conservadores,
trabalhistas e liberais) levaram-nos para o mercado comum, transformado
depois na UE, prometeram-nos mundos e fundos e, por fim, não cumpriram
suas promessas. Agora não podemos dirigir o nosso país e não podemos
controlar nossas fronteiras”, acentuou.
Os conservadores
chegaram ao ponto de apontar a necessidade de substituir o líder do
partido, atual premiê, David Cameron. O apelo foi lançado pelo membro do
Comitê Executivo, Martin Tod. As eleições legislativas foram marcadas
para o próximo ano e os eleitores “afastaram” já os conservadores para o
terceiro lugar no escrutínio para o Parlamento Europeu. O UKIP terá
23–24 assentos contra 13–14 pertencentes aos conservadores e
trabalhistas.
Na França, a Frente Nacional, chefiada por
Marine Le Pen, ultrapassou os socialistas e a Aliança pelo Movimento
Popular, podendo contar agora com 25 mandatos. Isto é, dez mais do que
possuem socialistas e representantes de centro-direita. Alguns
periódicos franceses qualificaram as eleições como “uma desonra do
presidente François Hollande. Marine Le Pen, por seu turno, se pronuncia
pelo rigoroso controle sobre a imigração, contra o predomínio da
burocracia comunitária, casamentos homossexuais e a política de
multiculturalismo. Ela se declara pela saída da França da OTAN e pela
cooperação com a Rússia. A política da França não pode ser conduzida sem
a participação do povo e contra sua vontade, frisou Marine Le Pen num
comício após o triunfo.
“O povo soberano expressou a sua
opinião como o tinha feito antes em momentos críticos na sua história.
Deu resposta àqueles que não acreditam em sua soberania e em liberdade. O
povo da França declarou em alto e bom som que quer resolver ele próprio
o seu destino. Precisamos de uma política para os franceses e com o
empenho dos franceses”.
O único país que não cedeu
perante os ânimos nacionalistas foi a Alemanha em que ganharam os
democratas cristãos, encabeçados por Angela Merkel. As perdas sofridas
se devem aos eurocéticos do partido Alternativa para Alemanha. A
deputada do parlamento estoniano, Yana Toom, de ânimos pró-russos irá
representar o seu país no Parlamento Europeu. Ela tem defendido aulas em
língua materna para a diáspora russa e a proteção de direitos das
minorias nacionais. Ela venceu o presidente do Partido Centrista,
prefeito de Tallin, Edgar Savisaar.
Nas eleições para o
Parlamento Europeu participaram mais de 43% do total de 400 milhões de
eleitores europeus. Após a contagem dos votos se tornou claro: a votação
veio traduzir um enorme protesto sob o pano de fundo da crise
financeira. A insatisfação se deve, acima de tudo, à política de portas
abertas para imigrantes, o malabarismo com valores tradicionais, a perda
das metas fundamentais da integração europeia e o excesso de burocratas
em Bruxelas.
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