quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

'Desdolarizar é preciso': como a dívida dos EUA impacta as economias do mundo e como fica o Brasil?

 

'Desdolarizar é preciso': como a dívida dos EUA impacta as economias do mundo e como fica o Brasil?

Joe Biden, presidente dos EUA, cai no palco durante cerimônia de formatura da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos no Falcon Stadium, em Colorado Springs. Colorado, 1º de junho de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 25.01.2024
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O alarmante aumento da dívida interna dos Estados Unidos vem desencadeando debates acalorados tanto no interior quanto fora do Congresso americano. Afinal, a vultosa conta pode respingar em toda a sociedade e, até mesmo, em todo o planeta.
Pedro Gustavo Cavalcanti Soares, doutor em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do bacharelado em relações internacionais da Faculdade Damas, destaca as consequências negativas que essa realidade impõe ao país e os impactos para o resto do mundo.
Em uníssono, analistas ouvidos pela Sputnik Brasil destacam a importância de prestar atenção nos movimentos estadunidenses e em suas consequências mundo afora. Soares ressalta que o descontrolado crescimento da dívida doméstica afeta diretamente áreas cruciais como saúde e educação nos EUA.
Brenno Almeida, economista especializado em planejamento e gestão pública pela Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Pernambuco (UPE), faz coro ao internacionalista.

Quanto é a dívida dos Estados Unidos?

A dívida dos EUA recentemente atingiu o montante histórico de US$ 34 trilhões (R$ 167,2 trilhões), um recorde até então.
Além de ter reflexos nas taxas crescentes de pobreza, o país figura como líder no aumento desse índice a nível global. Institutos independentes corroboram essa preocupante realidade, evidenciando a necessidade urgente de atenção às políticas internas para reverter esse cenário.

"Quando a gente fala em consequências dessa dívida, são consequências nefastas […]. Em primeiro lugar, para os aspectos sociais, educação e saúde principalmente. Além disso, uma elevada taxa é a crescente taxa da pobreza no país. Não é à toa que os Estados Unidos são o país em que a pobreza mais cresce no mundo", enfatiza Almeida à Sputnik Brasil.

Homem levanta cartaz durante um protesto contra os ataques das forças dos EUA e do Reino Unido contra os rebeldes houthis do Iêmen e contra a presença das forças dos Estados Unidos no Iraque, na praça Tahrir, em Bagdá, Iraque, 13 de janeiro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 25.01.2024
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Brenno Almeida destaca, ainda, a relevância dos títulos da dívida dos Estados Unidos como uma peça fundamental no xadrez financeiro global. Ele desvela os intricados mecanismos por trás dessa dinâmica e suas ramificações em níveis internacionais.

"Todo país elementa dívida através de títulos públicos, e esses títulos são um instrumento de negócio interessante porque você compra um direito da dívida, você se torna credor de alguém. […] E, no caso, você se torna credor dos Estados Unidos. Então muitos países, como Brasil, China e as famílias em geral, no mercado de títulos, consomem esse ativo. Então é um elemento significativo, é um elemento interessante", explica.

Conflitos internacionais e o ônus dos EUA

O internacionalista destaca, também, a persistência dos Estados Unidos em investir pesadamente em conflitos internacionais, perpetuando uma abordagem que remonta ao período pós-Primeira Guerra Mundial. A política de se envolver em conflitos para impulsionar a economia e garantir apoio parece desconectada das necessidades internas do país, conforme apontam dados recentes.

"São consequências bem negativas, considerando essa atenção a um aspecto internacional ao crescente investimento nos conflitos do exterior [] É como se os Estados Unidos ainda não tivessem abandonado aquela ideia do período entreguerras []. Período que ficou conhecido como período entreguerras, e naquela naquela época o país tinha um potencial enorme de crescimento a partir de investimentos na área de segurança, na qual suas empresas vendiam armamento tanto para o próprio país como para fora", relembra e calibra.

A análise de Soares sugere abandono na formulação de políticas domésticas eficazes, incluindo a luta contra a pobreza e investimentos substanciais em educação. Em vez disso, os EUA parecem presos a uma abordagem do século XX, baseada na busca de influência global por meio de intervenções militares.

Quais as características de um mundo multipolar?

Diante do debate sobre a importância da multipolaridade diante do crescimento descontrolado da dívida interna dos Estados Unidos, Almeida destaca a relevância desse cenário não apenas no âmbito político, mas também nas dinâmicas econômicas globais.
"A importância da multipolaridade se dá por vários elementos", argumenta Almeida. Ele enfatiza a necessidade de diversificação nos polos econômicos, sugerindo que a democratização dos meios de troca pode ser um catalisador para o surgimento de novos centros econômicos. Essa diversificação, segundo o economista, poderia contribuir para a melhoria da situação econômica de diversos territórios ao redor do mundo.

"Isso talvez [medo da perda de hegemonia] seja um temor de quem preza por uma hegemonia americana […]. É que você vai passar a ter, em certa medida, uma democratização do crescimento global. Você vai ter, naturalmente, um crescimento menor das economias centrais e um crescimento maior das economias periféricas", enfatiza.

Dólar dos EUA (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 04.08.2023
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A abordagem de Almeida sugere que a multiplicidade de polos econômicos não apenas proporcionaria a redistribuição de recursos, mas também impactaria as cadeias globais de maneira significativa. O especialista acredita que esse novo paradigma econômico poderia resultar em uma democratização do crescimento global, afetando diretamente a dinâmica entre as economias centrais e periféricas.

"Acredito que o que pode acontecer  e isso talvez seja um temor de quem preza por uma hegemonia americana  é que você vai passar a ter, em certa medida, uma democratização do crescimento global", destaca Almeida.

Ele sugere que, como consequência desse rearranjo econômico, as economias centrais poderiam experimentar um crescimento mais moderado, enquanto as economias periféricas teriam a oportunidade de crescer de maneira mais expressiva.
Essa redistribuição, argumenta Almeida, não apenas contribuiria para a maior equidade na distribuição da riqueza acumulada no mundo, mas também poderia alterar o equilíbrio de poder geopolítico.
hegemonia americana, que tradicionalmente influenciou as dinâmicas globais, poderia ser desafiada por um cenário mais equitativo, em que múltiplos atores econômicos compartilham a responsabilidade e a oportunidade de impulsionar o desenvolvimento global.

O que significa desdolarização?

O processo de desdolarização consiste nos países diversificarem suas reservas e se desvincularem da dependência do dólar americano.
O internacionalista Pedro Soares destaca a importância "crucial" da desdolarização das economias globais como uma estratégia fundamental para prevenir catástrofes financeiras, semelhantes à explosão da bolha que abalou os Estados Unidos em 2008.
Soares relembra o episódio marcante de 2008, quando o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, à época, afirmou que a crise financeira global seria apenas uma "marolinha" para o Brasil.
Essa perspectiva, segundo Soares, ganhou destaque porque o Brasil já estava adotando a postura de se aproximar de outros países e estabelecer parcerias econômicas, reduzindo gradualmente sua dependência financeira dos Estados Unidos.
Rublo russo e yuan chinês - Sputnik Brasil, 1920, 15.01.2024
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"Aquela questão da 'marolinha' ficou famosa exatamente porque o Brasil investia, na verdade, em se aproximar de outros países, ter outros países como parceiros financeiros econômicos, e abandonar gradualmente uma dependência financeira dos Estados Unidos. Isso fez com que o Brasil sentisse menos aquela explosão da bolha imobiliária de 2008", exemplifica.

A terceira gestão do governo Lula vem apostando, novamente, nesta perspectiva: no começo de outubro, Brasil e China realizaram, pela primeira vez na história, uma transação comercial completa em yuan, algo considerado um marco por ambos os países.
O internacionalista destaca que a desdolarização é uma estratégia que visa minimizar os impactos de crises econômicas internacionais em países que historicamente eram mais suscetíveis a esses eventos. Soares usa o exemplo das economias latino-americanas que buscam se aproximar da China, uma potência econômica que oferece estabilidade e força financeira.
"A China, ao investir em infraestrutura e adotar políticas de retorno mais brandas, diferencia-se das imposições de austeridade frequentemente associadas ao FMI [Fundo Monetário Internacional], uma instituição com forte influência dos Estados Unidos", pondera.

"A desdolarização se mostra como algo muito frutífero para os países que até então eram dependentes dos Estados Unidos", destaca Soares.

Segundo o analista, essa estratégia não apenas oferece proteção contra possíveis crises, mas também possibilita uma relação mais equilibrada e menos submissa aos interesses norte-americanos.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Dependência do dólar alimenta a explosão da violência de gangues no Equador - Rafael Correa ao Sputnik

 

Dependência do dólar alimenta a explosão da violência de gangues no Equador - Rafael Correa ao Sputnik

Ex-presidente equatoriano (2007-2017) Rafael Correa fala durante entrevista.  Foto de arquivo.  - Sputnik Internacional, 1920, 18/01/2024
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O Equador mergulhou no caos no início de janeiro, depois que líderes das gangues criminosas mais poderosas do país latino-americano escaparam da prisão. Em declarações ao Sputnik, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa disse que a nação sofredora nunca será capaz de lidar com o problema do crime organizado enquanto a sua economia permanecer tão fortemente dolarizada.
Rafael Correa sabe algumas coisas sobre o poder das redes do crime organizado no Equador. Servindo como presidente do país entre 2007 e 2017, e como ministro da economia e finanças em 2005, o político, agora forçado a viver no exílio depois de ter sido alvo de acusações criminais forjadas , notou esforços durante a sua presidência por parte dos poderosos cartéis de drogas do México para infiltrar-se no aparelho de segurança do país.

“Em 2010, vimos a maior influência dos cartéis de drogas mexicanos, especialmente o Cartel de Sinaloa. Por isso, reforçamos as leis e os controles”, disse Correa, referindo-se à poderosa gangue criminosa frequentemente caracterizada como uma das maiores organizações de tráfico de drogas do Hemisfério Ocidental, que controla por procuração a poderosa gangue Los Choneros do Equador.

Soldados montam guarda do lado de fora da prisão Guayas 1 em Guayaquil, Equador, em 13 de novembro de 2021, após a ocorrência de um motim.  - Sputnik Internacional, 1920, 01/10/2024
Mundo
Superestrada estadual e cocaína em ruínas: o que está alimentando a explosão da violência de gangues no Equador?
O governo de Correa deixou o Equador no invejável estatuto de uma das nações mais seguras e economicamente transparentes da América Latina. Sete anos depois, graças ao “fundamentalismo ideológico e à imposição do neoliberalismo” pelos seus sucessores, o país tornou-se um dos mais perigosos da região, com pesquisas mostrando que 64% dos equatorianos não se sentem seguros andando sozinhos em suas cidades e vilas, com apenas 41 por cento confiantes na competência da polícia local e 24 por cento na justiça do sistema judicial.
O Equador sofreu o ano mais violento da sua história em 2023, com quase 7.600 homicídios registados (um aumento de quase 70% em comparação com 2022). Tem agora a 11ª maior taxa de criminalidade do mundo e a quarta maior das Américas, de acordo com o Índice Global de Crime Organizado .
Juntamente com a transparência financeira, uma grande parte do problema que alimenta o tráfico de drogas tem sido a dolarização da economia do Equador, disse Correa.
“Uma economia dolarizada é mais suscetível ao crime organizado porque facilita a lavagem de dinheiro. Não tem taxa de câmbio, não tem registo destas transações [do cartel]”, disse o economista, que escreveu vários artigos académicos sobre os benefícios da desdolarização antes de se tornar presidente.
Correa apontou para uma "grande hipocrisia na luta contra a corrupção e o tráfico de drogas" no Equador, porque embora a polícia e o exército tenham sido chamados a combater criminosos e assassinos usando balas, não existem estruturas semelhantes para combater esquemas de financiamento de cartéis que lavam dinheiro sujo. dinheiro limpo, algo tornado possível por um sistema bancário global dominado pelo dólar.
Ele ressaltou, por exemplo, que no Equador e em muitos outros países, se alguém depositar US$ 10 mil em um banco, as autoridades financeiras receberão automaticamente uma notificação. Enquanto isso, se alguém colocar centenas de milhões de dólares no exterior, poderá passar completamente despercebido.
"Queremos combater a corrupção e o crime organizado? Vamos combater os offshores! Mas ninguém diz nada porque os paraísos fiscais podem ser encontrados nos EUA, Nevada, Florida, Dakota do Sul, Delaware, nas antigas colónias da Comunidade Britânica, em todos os Ilhas das Caraíbas, como as Bahamas e Nassau. E também na Europa: Luxemburgo, Andorra, Liechtenstein - países com alguns dos rendimentos per capita mais elevados do mundo", insistiu Correa.
Comentando a possibilidade de intervenção dos EUA na crise de segurança do Equador em meio à onda de violência de gangues, o ex-presidente enfatizou que tal cenário seria um desastre para o país.
"Nós, latinos, somos muito bons em negar os fatos e acreditar no impossível. Quando é que a intervenção dos EUA funcionou? A Colômbia abriga sete bases militares dos EUA e ainda assim é o principal produtor mundial de drogas; temo [a repetição] do 'Plano Columbia' no Equador e acho que está chegando", alertou Correa.
As forças de segurança montam guarda do lado de fora do Palácio Carondelet, em Quito, em 10 de janeiro de 2024, enquanto o Equador permanece em estado de emergência após a fuga da prisão de um perigoso chefe do narcotráfico.  O presidente do Equador, Daniel Noboa, deu ordens na terça-feira para neutralizar gangues criminosas depois que homens armados invadiram e abriram fogo em um estúdio de TV, enquanto bandidos ameaçavam execuções aleatórias em um segundo dia de terror no país.  As gangues declararam guerra ao governo depois que Noboa anunciou estado de emergência após a fuga da prisão, em 7 de janeiro, de um dos chefes do narcotráfico mais poderosos do Equador.  - Sputnik Internacional, 1920, 01/10/2024
Américas
Kirby: É muito cedo para saber se as tensões no Equador agravarão a crise na fronteira dos EUA
Este artigo foi traduzido e adaptado de um artigo publicado pelo Sputnik Mundo, nosso site irmão em espanhol.