QUEDA
DE SARKOZY – BOM PARA A FRANCE, EUROPA E O MUNDO
França:Eleições-Análise
de José Dirceu Destacado
por José Dirceu
Domingo, 22 de Abril de 2012 14:07
A França realiza hoje (22/4) o
primeiro turno das eleições presidenciais que podem significar um resgate das
lideranças e dos governos de esquerda no país - e, quem sabe, na Europa.
Pelo que indicam as pesquisas, haverá
segundo turno entre o atual presidente, Nicolas Sarkozy, e o socialista
François Hollande. Os números mais recentes revelam empate nas intenções de
voto, com percentuais próximos.
Mas a tendência é a de que Hollande
saia vitorioso no primeiro turno, pois sua campanha está em ascensão e
contrasta com o declínio da campanha à reeleição de Sarkozy.
Há muita coisa ainda para acontecer nas
eleições francesas, até pelo histórico de grande abstenção das últimas
eleições, mas até o momento Sarkozy tem se apegado a uma campanha cujo tom
principal é o medo.
Apregoa o temor de que uma vitória
socialista traria instabilidade ao país, como se não fosse o presidente a
conduzir a França nesse período de grave crise econômico e política.
Sarkozy tem se distanciado do papel de
governo durante a campanha, para evitar mais desgastes, mas a estratégica não
tem surtido efeitos e o campo conservador começa a se desmobilizar.
E a perda de apoio na corrida presidencial
tem levado Sarkozy a recorrer com maior frequência aos discursos que o
aproximam da extrema direita, representada nestas eleições por Marine Le Pen,
filha de Jean-Marrie Le Pen -que tem 16% nas pesquisas.
É o que se verifica nas posições de Sarkozy
em questões como imigração e nacionalismo, caras à extrema direta francesa.
No campo oposto, Hollande faz uma
campanha pautada na esperança e nas possibilidades de mudança. Acena com
políticas que tragam novas perspectivas socioeconômicas aos franceses - em
especial, preocupados com o alto desemprego e o baixo nível de crescimento,
frutos amargos de um receituário neoliberal de enfrentamento à crise que impõe
cortes nos gastos públicos e nos benefícios sociais como meio de controle
fiscal.
Crítico das políticas do atual governo
de Sarkozy, que adotou as receitas que têm levado recessão à Europa, o
socialista Hollande chega até a usar propostas semelhantes às adotadas no
Brasil. É o caso da ideia de atrelar o salário mínimo não apenas à inflação,
mas também ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do país.
Assim, na medida em que a atividade
econômica se recuperar, isso se reverterá em ganhos para a sociedade em forma
de aumento da renda.
Essa dinâmica de valorização do salário
mínimo permite aquecer o consumo, estimular a produção, gerar empregos,
favorecer o crescimento e, fechando o círculo virtuoso, ampliar os recursos na
mão dos cidadãos.
Trata-se de estratégia que deu certo no
Brasil e que pode ser uma das alavancas da recuperação da economia europeia.
Hoje, a profundidade da crise e o
equívoco do remédio aplicado (as políticas recessivas neoliberais) levaram à
desarticulação do Estado de Bem-Estar Social, que marcou os países da Europa.
Os cortes em benefícios sociais,
aposentadorias e nos salários, com os consequentes impactos negativos nos
níveis de emprego, retiraram dos cidadãos franceses o sistema de proteção
social que levou décadas para ser montado.
Essa crise econômica que se estendeu
para a área social acaba por descortinar uma crise política, de falta de
lideranças nacionais capazes de formular e executar propostas de superação da
crise.
O maior crítico das medidas adotadas
pelo governo francês é o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Com 13% das
intenções de voto, Mélenchon não admite a redução do papel do Estado na
superação da crise e também denuncia a submissão do atual governo às
determinações da Troika (nome dado à junta de interventores do Banco
Central
Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional).
Se o processo de crise socioeconômica e
política na França resultar numa eleição que produza novas lideranças de
esquerda, estaremos diante de uma luz no fim do túnel. Pode ser esse o saldo
mais relevante das eleições francesas: o início de uma recuperação da capacidade
das esquerdas europeias em formular, propor e realizar políticas públicas de
crescimento econômico e proteção social.
Se isso se concretizar, o sufrágio na
França pode significar um marco de um novo momento no continente.
Espera-se da esquerda francesa que
utilize o atual processo eleitoral para se reorganizar, aproximar-se da
sociedade e de seus anseios e produzir novas lideranças políticas. A
profundidade da crise na Europa exige que a esquerda tome a dianteira das
necessárias transformações no continente e seja condutora da trajetória de
recuperação.
Não só a França e a Europa serão
beneficiadas, mas o mundo todo.

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