segunda-feira, 8 de maio de 2017

Nem Síria, nem Coreia do Norte: tem outro 'candidato ideal' para ser atacado pelos EUA


Soldados norte-americanos em Mossul, Iraque (foto de arquivo)

Nem Síria, nem Coreia do Norte: tem outro 'candidato ideal' para ser atacado pelos EUA

© AP Photo/ Maya Alleruzzo
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Os controversos resultados das recentes ações bélicas dos EUA, bem como as características próprias do sistema político e econômico do país norte-americano, empurram o presidente Donald Trump para considerar um novo alvo para um ataque militar. Mas qual?

Por um lado, o súbito ataque dos EUA contra o aeródromo sírio de Shayrat, após as acusações contra Damasco de ter cometido um suposto ataque químico, fomentou a imagem de Trump como um político que não se exime a usar a força e a pressão midiática para resolver os conflitos internacionais, opina Ivan Danilov, economista russo e autor de um popular blog sobre geopolítica em um artigo para o Sputnik. Por outro lado, o fracasso deste mesmo enfoque no caso da Coreia do Norte, país que levou a cabo testes de mísseis balísticos sob as ameaças de ações militares por parte dos EUA, prejudicou esta mesma imagem, e a Administração Trump poderia estar agora pensando em mudá-la.
"Vale sempre a pena analisar os riscos friamente. Atualmente, há um risco considerável de que os próximos Tomahawk norte-americanos voem para o Irã", adverte Danilov.
Os motivos internos
A indústria militar norte-americana tem uma enorme influência na economia do país e, por conseguinte, na vida política dos EUA. Por isso, seguir os interesses deste setor é crucial para qualquer presidente, especialmente quando "este presidente não teve o apoio das elites norte-americanas, como Trump", afirma o economista.
"A popular piada política de que 'cada presidente dos EUA deve ter a sua própria guerra em grande escala' não indica a sede de sangue dos líderes norte-americanos, mas, sim, a crua confirmação da influência do 'lobby' de armamento no país", acrescenta o analista.
Mas, chegado a este ponto, surge uma série de problemas ou, melhor dito, de restrições. Um conflito muito grande prejudicaria a economia dos próprios EUA, acabando com as redes logísticas internacionais necessárias para a prosperidade das empresas globais, muitas com sede na nação norte-americana. Além disso, o mesmo Trump prometeu acabar com "as guerras sem muito sentido" no estrangeiro.
Essa foi a razão, de acordo com Danilov, por que ainda não foram desencadeadas guerras na Síria e na península Coreana, apesar das duras declarações e demonstrações de força.
Na Síria, o risco de um confronto direto com as tropas russas, e o correspondente risco de este escalar a nível global, excluiu qualquer possível vantagem relacionada com um ataque. Na Coreia do Norte, a ameaça de um sério incidente nuclear ou de uma sangrenta guerra regional, também intimidou Washignton, que não quis colocar em risco seus aliados em Seul e Tóquio. Além do forte descontentamento que uma possível agressão gerou em Pequim e Moscou, opina o especialista.
Então, onde podem EUA mostrar o seu poder, sem correr esses riscos? A resposta, segundo o especialista, é simples: o Irã.
A "tempestade perfeita" para Teerã
Danilov enumera uma série de fatores que fazem com que a ação militar contra Teerã seja quase "procurada" pelos Estados Unidos.
Ao atacar o Irã, Trump se imporia sobre o "fraco" Barack Obama, que assinou com o país persa "o pior contrato da história", segundo as palavras do próprio presidente. Além disso, Trump prometeu durante sua campanha eleitoral manter uma postura dura para com o país persa.
Uma guerra contra um adversário tão forte como o Irã precisaria de enormes investimentos em Defesa e justificaria qualquer aumento do orçamento militar. Por isso seria algo desejável pela indústria armamentista dos EUA.
Os aliados mais próximos de Washington na região, Israel e Arábia Saudita, consideram o Irã como seu principal rival. Por isso, qualquer ação militar seria apoiada politicamente ou militarmente por eles. Israel tem o seu próprio e poderoso Exército, enquanto que a Arábia Saudita está entre os maiores compradores de armas dos EUA.
Um conflito em grande escala no Oriente Médio dispararia os preços do petróleo, o que beneficiaria tanto a indústria de petróleo dos EUA, como a da Arábia Saudita. Entre as "consequências favoráveis" do colapso do Irã para os EUA figuram também os problemas que provocariam na China, uma vez que Teerã é um importante fornecedor de petróleo do gigante asiático. Finalmente, a queda de Teerã prejudicaria enormemente o projeto geopolítico mais ambicioso da China: "A faixa econômica da Nova Rota da Seda", que dá uma grande importância ao Irã e a seus vizinhos.
Tendo em conta todos estes fatores, um ataque contra o país persa "é quase 'lógico' para os EUA", afirma o especialista.
Entre os riscos e as desvantagens desta operação militar, no entanto, pode-se destacar o rearmamento de Teerã, sobretudo, pela presença de sistemas antiaéreos russos no país. Além disso, os aliados europeus dos EUA parecem estar contra a suspensão do acordo nuclear, já que as empresas da UE têm agora acesso a vastos recursos do Irã e ao seu mercado interno.
Os tambores de guerra
O presidente russo, Vladimir Putin, se reúne com o presidente iraniano, Hassan Rouhani, no Kremlin
© REUTERS/ Sergei Karpukhin
"A preparação diplomática [dos EUA] para denunciar o acordo nuclear com o Irã é evidente. Trump acusou o Irã de violar o 'espírito' do acordo, enquanto que o [secretário de Estado] Rex Tillerson chamou Teerã de 'patrocinador do terrorismo'. Este último pretexto já foi usado para atacar o Iraque, mas nada impede que o mesmo truque volte a ser repetido", avalia o autor.
O risco de uma invasão americana no Irã coloca a Rússia em uma situação desconfortável. "Não se pode entrar na guerra ao lado do Irã, nem apoiar um ataque ", estima Danilov. Assim que "a variante ideal seria atingir uma solução diplomática para as tensões com o apoio da UE e da China".
Não obstante, ainda é cedo para pesquisar variantes, já que, "em primeiro lugar, vamos ver com que planos voltará Trump da sua próxima turnê por Israel e Arábia Saudita", conclui o analista.
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