segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

ENTRE SANÇÕES - JAPÃO SINALIZA ACORDO DE PAZ COM A RÚSSIA


Premiê nipônico pretende fechar acordo de paz com Rússia

Russia, japão, ilhas curilhas

Foto de arquivo. Ilhas Curilhas

O premiê do Japão, Shinzo Abe, numa conversa com prefeito de Nemuro, confirmou a sua intenção de solucionar a disputa territorial com a Rússia.

“Irei resolver o problema dos territórios setentrionais e firmar um acordo de paz. Como político e chefe de governo, vou fazer os possíveis para alcançar esse objetivo”, enfatizou Shinzo Abe.
Este diálogo atraiu atenção e causou repercussões na Rússia. O ex-embaixador e orientalista russo, Alexander Panov, comenta:
“A declaração foi feita no período de campanha eleitoral e não contem nada de concreto. Quando Abe chegou ao poder, também falava muito no assunto. Desta vez, respondeu a uma pergunta do prefeito de Nemuro. Não podia responder de outra maneira. Tal é sua missão e a meta. Putin também, num encontro com Abe, se mostrou favorável à solução do problema territorial.
Mas agora a bola está no campo do Japão que deverá assumir um posicionamento positivo. Nesse caso, será possível dar novos passos nessa vertente. Ao mesmo tempo, será prematuro ou até impossível falar de soluções concretas numa altura em que o Japão se empenha na campanha de sanções antirrussas, criticando a Rússia. Hoje estamos num ambiente desfavorável para a obtenção de novos acordos”.
Ao se deter no princípio de hikiwake (empate), proposto por Putin e encarado com interesse pelo Japão, quanto à solução do problema das ilhas Curilas, Panov disse que “ninguém chegou a explicar o conteúdo desse termo”. Por isso, essa fórmula pode ser interpretada de forma arbitrária. “No meu entender, ohikiwake significa a busca de soluções de compromisso”, realçou.
O cientista nipônico, Iwao Osaki, defende uma opinião interessante:
“Não obstante o fim da guerra fria, a política externa nipônica não sofreu alterações. Políticos e diplomatas japoneses têm seguido as categorias e normas da guerra fria, sem poder formular um juízo objetivo e autônomo, independente dos EUA. Ao Japão convém entender que os problemas territoriais se referem, antes de mais nada, à sua lógica de raciocínio e à compreensão de processos históricos. Tóquio deverá tentar equacionar as disputas territoriais, o que traduz seus interesses nacionais”.
Com essa finalidade, o Japão tem de alterar a sua visão da história. Como se sabe, Tóquio assinou o Tratado de São Francisco ao abrigo do qual perdeu as ilhas Curilas. Mas depois, os líderes nipônicos, a começar por Shigeru Yoshida, se puseram a constatar que as ilhas Khabomai, Shikotan, Kunashir e Iturup teriam pertencido sempre ao Japão. Depois do reforço da união político-militar com os EUA em 1960, a disputa territorial com a Rússia virou objeto de mitologia política.
Durante a guerra fria, os EUA se aproveitaram desse mito para impedir o processo de aproximação entre o japão e a Rússia. Se calhar, o mito político será necessário para unir a nação, mas, por vezes, tais fantasias redundam em guerras. Devido aos mitos políticos, os japoneses estão nutrindo sentimentos negativos em relação aos russos e têm uma psicologia de conflitualidade.
A lenda sobre os territórios setentrionais passou a ser um problema diplomático que tinha causado uma reação negativa da URSS e depois da Rússia. Em 2009, o parlamento nipônico, através de um decreto especial, pôs fora de lei os territoriais setentrionais russos, o que veio suscitar uma acérrima polêmica e o descontentamento de políticos e diplomatas russos.
Foi então que o presidente russo, Dmitri Medvedev‎, chegou em uma “visita relâmpago” a Kunashir para reagir dessa forma a decisão nipônica inaceitável. Mas o Japão, se baseando em convicções e ilusões próprias, começou a lançar críticas e reproches à Rússia, o que veio agravar ainda mais as relações bilaterais. Muitos russos jovens decidiram se aderir à campanha de críticas ao Japão, o que, por sua vez, acabou por estragar a imagem do país aos olhos deles. É um fator negativo que os japoneses não compreendem“.
Iwao Osaki considera que os japoneses têm de reconhecer o fato de o Japão ter sido um país militarista que participara da Segunda Guerra Mundial do lado da Alemanha nazista e da Itália fascista. Devem igualmente reconhecer a derrota do Japão.
Isto não significa a negação do caminho percorrido pelo Japão no período pós-guerra, frisou Osaki. Os japoneses acabaram por reconstruir o seu país e edificar um Estado próspero. É, sem dúvida, um “ganho” que deve ser utilizado. O Japão deverá evitar conflitos com a Rússia, a Coreia do Sul, a Coreia do Norte, a China, Taiwan e os EUA para poder construir uma comunidade econômica e política na região asiática. Mas para tal, Tóqui terá de mudar o seu modo de pensamento.

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