domingo, 26 de janeiro de 2014

SYRIA - PUTIN RECEBE APOIO DA ÁUSTRIA RUMO À PAZ


Ontem, 15:44

Presidente federal da Áustria sobre política, energia e esporte

Áustria, Rússia, Heinz Fischer, entrevista, Voz da Rússia, olimpíada de Sochi

Foto: EPA

Numa entrevista exclusiva à Voz da Rússia, Heinz Fischer, presidente federal da Áustria, debruçou-se sobre o papel da Rússia na regularização da crise síria, sobre questões da interação da Rússia e UE e sobre projetos energéticos.

O presidente da Áustria sublinhou também que ele e o seu país saúdam as Olimpíadas em Sochi e consideram que elas terão êxito.
Voz da Rússia: Na opinião do Sr. presidente, qual o papel da Rússia na regularização do problema sírio?
Heinz Fischer: Penso que a ideia fundamental da Rússia consistia em que era necessário pôr fim à guerra não através de uma intervenção militar externa, mas através de conversações. É uma ideia certa e, hoje, todas as forças no Conselho de Segurança, todos os Estados membros do Conselho de Segurança apoiam essa ideia. Não vou julgar se as possibilidades de êxito são grandes ou não. Não ouso fazer prognósticos, mas a via das conversações é o caminho certo. A via de novos armamentos e novas intervenções é falsa.
Voz da Rússia: Como avalia a situação na Ucrânia?
Heinz Fischer: Em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas protestam contra o presidente Yanukovich e defendem a posterior cooperação e a assinatura do Acordo de Associação com a UE. Eu visitei várias vezes a Ucrânia e tento compreender a situação da Ucrânia o melhor possível. Há algumas semanas atrás, antes da Conferência em Vilnius, o presidente Yanukovich visitou Viena. Conversamos durante muitas horas porque, precisamente então, o governo ucraniano decidiu assinar o acordo de associação, sobre o qual tinha concordado há um ano e meio antes. Penso que, no fundo, a maioria da população da Ucrânia está interessada nos laços estreitos com a Europa. Ele está muito interessada no acordo com a UE e o presidente Yanukovich disse-me, pessoalmente e nas conferências de imprensa, que a perspectiva europeia continua aberta. Mas, simultaneamente, na Ucrânia existem enormes problemas econômicos e sociais, cuja solução não pode ser adiada para um perspectiva longínqua, eles exigem medidas urgentes, créditos e recursos energéticos.
Parece que o presidente Putin propôs ao seu homólogo Yanukovich uma grande ajuda imediata e ele decidiu aceitá-la. Amplas camadas da população da Ucrânia veem nisso uma viragem da Europa para a Rússia. Daí o atual confronto duro e contradições que acabam em incidentes sangrentos nas ruas. Posso apenas afirmar uma vez mais que se trata de problemas verdadeiramente complexos, mas só podem ser resolvidos através de conversações. Juntarem-se e discutirem o que se pode fazer num futuro próximo e o que se deve fazer num futuro mais distante. A situação da Ucrânia é tal que não deve ser vista como o "pomo da discórdia". Quem conseguirá puxar a Ucrânia para o seu lado: a Europa ou a Rússia? A Ucrânia não deve ser o "pomo da discórdia" entre a Europa e a Rússia, mas uma ponte entre elas. A Ucrânia deve manter muito boas relações com a Rússia, bem como com a Europa, ela deve estar aberta a ambas as partes e considero que isto é o que de melhor se pode desejar à Ucrânia.
Voz da Rússia: Esses acontecimentos poderão refletir-se nas relações da Ucrânia com a UE ou da Rússia com a UE e a Áustria?
Heinz Fischer: Penso que isso não se refletirá de forma negativa nas relações entre a Rússia e a Áustria, mas também não se refletirá de forma positiva. Talvez existam alguns preconceitos emocionais, o sentimento de que a Ucrânia estava pronta a assinar um acordo sensato de associação com a Europa, mas, no último momento, a Rússia, ou o presidente da Rússia, roubaram, se assim se pode dizer, a Ucrânia à Europa. Como quando um jovem rouba a noiva a outro.
Mas eu não olho para isso assim, compreendendo que a Ucrânia se viu numa situação difícil, em que foi obrigada a procurar ajuda externa onde pôde. Estou firmemente convencido de que, a longo prazo, a cooperação estreita entre a entre a Ucrânia e a Europa dará, de uma forma ou de outra, muitos impulsos valiosos ao desenvolvimento da Ucrânia. Quando se olha para a Polónia, vê-se que, depois da sua adesão à UE, recebeu fortes impulsos para o crescimento e soube realizar medidas de modernização. Penso que isso também é possível no caso da Ucrânia. Porém, a atual direção ucraniana avalia a ação positiva da cooperação com a Europa como um programa a médio prazo, ou seja, "passarão três ou quatro anos até que isso se reflita no crescimento da economia, no aumento das exportações, mas nós não podemos esperar tanto, precisamos de salvar a situação agora".
Voz da Rússia: E que pode dizer sobre os projetos energéticos da Rússia e da UE?
Heinz Fischer: Durante muito tempo, a Áustria considerou o Nabucco um projeto ótimo, mas a Rússia pensou doutra maneira. Nós estávamos interessados na realização do projeto Nabucco, mas ele falhou e, então, foi tomada uma decisão a favor da South Stream. Não ficámos contentes, mas os nossos peritos em energia provaram que que essa questão era vitalmente importante para nós, que, desse modo, poderemos satisfazer as nossas necessidades em energia. Gostaria de assinalar que a nossa cooperação no campo da energia com a Rússia e, antes, com a União Soviética, foi, durante muitas décadas, transparente e mutuamente vantajosa. Nós, os austríacos, temos uma experiência positiva nele. Pelo nosso lado, fomos um parceiro seguro e sério no cumprimento de contratos. Por isso, iremos acompanhar com calma os acontecimentos em torno da South Stream e analisá-los.
Voz da Rússia: Que representantes da Áustria veremos nas Olimpíadas de Sochi?
Heinz Fischer: Essa questão irá ainda ser analisada nos dias que restam até Sochi. Posso dizer que a Áustria estará representada em Sochi por uma grande equipe esportiva. Esperamos conquistar um bom número de medalhas. O interesse para com estas Olimpíadas será muito grande na Áustria. Ela irá estar representada ao mais alto nível: pelo chefe do governo e chanceler federal Faymann, pelo ministro da Defesa e do Desporto e penso que também pelo vice-presidente do Parlamento. Será uma delegação altamente representativa que mostra que não boicotamos um acontecimento como os Jogos Olímpicos. Desejamos à Rússia um Jogos seguros e um grande êxito nas Olimpíadas.
A Áustria é um país com uma posição clara sobre os direitos humanos, vamos defendê-la, porém, se surgem divergências neste campo, isso não é motivo nem para a Áustria, nem para outros Estados boicotarem os Jogos Olímpicos. Nós não boicotamos Jogos nem na China, nem nos EUA. Consideramos que o esporte é capaz de aproximar os povos, por isso não se deve torpedar os jogos com ações que os afastem. Esta é a minha posição. Eu cheguei a acordo com o chanceler federal de que um de nós iria a Sochi. Isso foi no verão, quando no meu gráfico de trabalho estava prevista uma visita à Tailândia, por isso decidimos que o chanceler irá a Sochi. Há quatro ou cinco dias atrás, a minha visita à Tailândia foi adiada devido aos acontecimentos nesse país. Mas nada iremos mudar na constituição da delegação: o chanceler federal, o ministro da Defesa e o vice-presidente do Parlamento estarão certamente a assistir à cerimônia de abertura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário