Os peritos constatam que a presença dos serviços secretos americanos na Coreia do Sul e a sua atividade intensa neste país não constituem segredo para quem quer que seja. O país vive no estado de “em pé de guerra” por causa do conflito com o seu vizinho do norte. Todavia, a mídia coreana informa que as autoridades do país sabiam que a CIA e o serviço de inteligência militar trabalhavam no seu território. Ambas as estruturas espionavam contra a Coreia do Norte e participavam os segredos obtidos a Seul. Mas a atividade da Agência de Segurança Nacional resultou uma surpresa, pois o objeto da sua monitoração eram políticos influentes da Coreia do Sul, incluindo o presidente.
O mais provável é que os novos desmascaramentos façam subir ainda mais o grau de antipatia em relação aos americanos mas não resultem em nenhum passo concreto. É que as maiores economias da Ásia, - o Japão, a China e a Coreia do Sul, - dependem demais dos EUA – do mercado americano, da transferência de tecnologias americanas, etc. É possível que o grau da dependência política seja ainda mais alto, opina o politólogo Oleg Matveichev, professor da Escola Superior de Economia.
“A América é o garante da segurança do Japão e da Coreia do Sul contra a Coreia do Norte e a China, potências comunistas poderosas e agressivas. Por isso, a Coreia do Sul não irá além de alguns gestos de descontentamento. Os seus líderes devem preservar a face perante o povo, devem fazer a declaração ritual, tipo “estamos descontentes, somos um país soberano”.
Aliás, o escândalo em torno da espionagem vai impressionar um cidadão sul-coreano muito menos do que um europeu. Gueorgui Toloraya, diretor e Programas de Estudo da Coreia do Instituto de Economia junto da Academia das Ciências Russa, aponta que na cultura confuciana do Extremo Oriente, o conceito de “privacidade”, isto é, inviolabilidade da vida particular, está muito menos desenvolvido do que na Europa. Por isso, o desmascaramento da espionagem não irá suscitar uma reação tão forte. Na Ásia, os escândalos irão extinguir-se muito mais rapidamente do que no Velho Mundo, diz Gueorgui Toloraya.
“Se um sul-coreano simples souber que os americanos têm interceptado as conversas dele e das personalidades políticas do seu país, vai dizer, - que fazer, são aliados! Não acredito que isso provoque um furacão político, como no Brasil ou na Europa. O mais provável é que tudo se limite a certas declarações habituais e é pouco provável que isso venha a minar as relações de aliança”.
Basta recordar que a própria Coreia do Sul surgiu em resultado do acordo americano-soviético de 1945 sobre a divisão das esferas de influência na península coreana. As disposições geopolíticas, em resultado das quais o Japão e a Coreia do Sul ficaram na “órbita” dos EUA formaram-se durante mais do meio-século e, para destruí-las, um só Snowden evidentemente não basta.