Com o melhor desempenho da economia já ameaçado para 2014 e uma inflação projetada com os mesmos sinais de resistência observados até aqui – entremeados por todas as causas e efeitos de uma “tempestade perfeita”, como bem observou o ex-ministro Delfim Netto –, restavam poucas ações para a presidente Dilma Rousseff tentar sair do canto. E virar janeiro com novas perspectivas políticas.
Autorizar a petrolífera a corrigir os preços dos combustíveis para reduzir o rombo do caixa e definir um modelo de concessão dos aeroportos atraente para os investidores eram decisões da caneta presidencial.
Econômicas, mas com bons dividendos políticos até que ela peitasse a resistência do ‘fogo amigo’ dentro do seu governo e do seu partido.
Em relação à Petrobras, o cálculo foi mais evidente. A menina dos olhos das estatais e admirada mundialmente por longos anos vinha de sérios prejuízos, sem capacidade de investimento, com uma somatória de desastres administrativos: investimentos mal feitos, aparelhamento político perdulário e, pior, falta de aval para corrigir preços ao sabor da cotação do petróleo e das escapadas do câmbio.
Dilma resolveu completar o dever de casa quando não havia mais como protelar. Levou a competente Graça Foster à presidência da empresa em fevereiro de 2012, deixou-a cortar os gastos e iniciar o desinvestimento – venda de ativos – nos últimos meses, mas resistia em autorizar um mecanismo de formação de preços, por pressão do ministro da Fazenda Guido Mantega, temeroso do repique inflacionário e mais sujeito às pressões do PT.
O sucesso pouco duvidoso do leilão do Campo de Libra, o primeiro do pré-sal, quando não houve concorrência e a Petrobras, que levou em parceria com os chineses (CNPC e CNOOC), Shell Total, teve que pagar 40% do bônus de assinatura de R$ 15 bilhões pelo contrato, para um retorno de caixa que ainda vai levar uns cinco anos se tanto, foi a senha.
Fez muito bem, porque o método de reajuste dos combustíveis, que será definido talvez amanhã, muito provavelmente será conservador em evitar estragos na inflação, mas mais ainda porque começa a recuperar um patrimônio público ameaçado – já inclusive colhendo resultados positivos nos últimos dias com a valorização das ações da Petrobras.
Valoriza a imagem desacreditada do governo, cuja nota das agências de risco está em linha de rebaixamento, especialmente de investidores alarmados com o rombo recorde do déficit externo (US$ 7,1 bilhões em outubro e equivalente a 3,67% do PIB no acumulado de 12 meses). E oxigena o asfixiado ambiente econômico como um todo.
Pragmatismo econômico, mas político também.
Como foi caso dos leilões dos terminais aéreos do Rio e de Belo Horizonte. Embora já definidos há tempos para a última sexta-feira – e precedidos pelas concessões dos aeroportos de Cumbica (São Paulo), Viracopos (Campinas) e JK (Brasília) em 2012 - e com a engenharia econômico-financeira também conhecida com alguma antecedência, foram iniciativas nas quais se assumiu o risco de desagradar ao xiismo dos “interesses nacionais”.
E vieram antes tarde do que nunca para o governo. Depois de arrecadar R$ 24,5 bilhões pelos três primeiros, recolhe aos cofres do Tesouro R$ 20,8 bilhões pelos dois, em leilão altamente concorrido e valorizado por um ágio de 293,9%, no Galeão, e de 66%, no de Confins.
Ao contrário das concessões de exploração de petróleo e gás, cujo receituário é de achatamento da rentabilidade do setor privado, no setor aeroportuário o governo foi mais generoso.
E ganhou politicamente.
No exemplo dos nobres hóspedes da Papuda, Dilma nada podia fazer, mas a linha política se fecha.
Afinal, restava a torcida secreta para que José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares fossem presos ainda em 2013, dissipando quanto antes a comoção num PT pouco convencido da sua pureza – que o diga o tanto quanto fundador do petismo, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra. E deu certo.
Às favas com o ideário, o negócio é tentar descolar do partido a fama de ninho de corruptos e garantir mais quatro anos. Na reeleição do presidente anterior pesou pouco, menos ainda na vitória da atual, mas o ano que vem quem garante?
Tanto que, se algum inocente útil não percebeu o comedimento de Luiz Inácio Lula da Silva ao comentar as ordens de prisões atribuladamente ordenadas pelo presidente do Supremo Joaquim Barbosa, acordou com a cobrança de Dirceu ao ex-presidente exigindo declarações mais estridentes, conforme noticiado nesta segunda-feira.
Missão dada, missão cumprida. Agora é torcer (rápida e secretamente, naturalmente) para que o privilégio de prisão domiciliar a Genoíno venha logo e que o tema se perca na catarse consumista e festiva de dezembro.
E evitar (ou atenuar) a permanência do mensalão nas manchetes 2014 a dentro.
Aos que acreditam que muito disso tudo não chega ao grosso dos que votam no PT e coligados, com uma boa dose de razão, por sinal, vale a premissa de que o pragmatismo político é bom para os seus profissionais.
Nas eleições passadas, Lula da Silva, mestre na arte, percebeu que a população não entraria no jogo da oposição. Ela queria comer melhor e se fartar de aparelhos eletrodomésticos.
Ainda quer, mas já com um degrau mais sofisticado em preencher os vazios e falsas promessas da política. Consequência natural dos que pensam melhor de barriga cheia.
E com a aprovação ao governo ainda resistindo nas pesquisas, ainda que com margem para ganhar no primeiro turno, o jeito é parafrasear um dos slogans de campanha de Bill Clinton.
Além do original “é a economia, idiota”, o governo também vai de “é a política, idiota”.

A opinião do autor pode não coincidir com a opinião da redação.