Quase metade dos judeus na Suécia tem medo de usar quépi ou de demonstrar perante o público a sua confissão religiosa. Na França receiam ostentar a sua religiosidade 40% e na Europa em geral - 22%. O respetivo relatório foi dedicado aos 75 anos da Noite dos Cristais, ou seja, uma série de atos de violência contra os judeus, ocorridos em 1938 na Alemanha e França.
Os austríacos não estão sozinhos na sua aspiração de evocar o problema judaico: na mídia israelense e ocidental têm surgido publicações alusivas ao “antissemitismo europeu”. Por exemplo, o periódico norte-americano The National Interest empreendeu uma tentativa de acumular ou sintetizar todos os dados sobre esta temática. O quadro que se configurou é o seguinte: quase um quarto dos judeus residentes na Europa evita ações, rituais ou símbolos que os possam identificar como adeptos do Judaísmo.
Enquanto isso, a maioria dos judeus franceses constata a crescente vaga de antissemitismo verificada nos últimos cinco anos. Na Hungria têm vindo a crescer os ânimos antijudaicos. Além disso, dois terços dos habitantes da Europa confessaram não fazer sentido contestar as ações viradas contra os judeus, pois que “as queixas apresentadas às autoridades policiais não servem para nada”.
Uma das primeiras edições a chamar atenção para o problema candente foi o jornal israelense Jerusalém Post que se deteve na situação difícil dos judeus na Hungria. Na ótica do jornal, o incremento de ânimos antijudaicos na Europa é capaz de provocar uma nova vaga de emigração.
Todavia, na própria Hungria, por exemplo, dizem que tais previsões não correspondem à realidade. São as forças de oposição que põem lenha no fogo, acredita o deputado pelo partido da extrema-direita Jobbik, Marton Dendesi:
“A Hungria está sendo acusada de ter optado por um governo da direita e de ter uma bancada do partido nacionalista radical no Parlamento. Tais críticas vêm aumentando. Hoje, quando o Jobbik, com os 20% dos votos e apoiado por um milhão de habitantes, está representado no Parlamento, as acusações infundadas sobre o antissemitismo voltaram a ganhar fôlego. Mas ninguém é capaz de citar algum incidente mais ou menos sério. Ao mesmo tempo, as organizações judaicas reconhecem que a sua cultura na Hungria está vivendo uma etapa de renascimento. Seria bom se puséssemos os pontos nos “ii”- ou assistimos ao ressurgimento da cultura judaica, ou lançamos acusações de antissemitismo”.
Claro que o ponto de vista do político húngaro não pode ser encarado como a verdade em última instância. Existem opiniões diferentes. Ao aumento de ânimos antissemitas nos países comunitários foi dedicado um capítulo do relatório preparado pela associação espanhola SOS Racismo. O documento se baseia em dados concedidos pelo governo de Espanha e em pesquisas efetuadas por institutos prestigiosos da Europa, assinala Miguel Maskrian, presidente desta organização pública.
“Na UE, as tendências antijudaicas realmente existem, tendo como uma das principais causas a política discriminatória de Israel em relação ao povo palestino que, por sinal, continua sendo alvo de críticas no palco internacional. Na sequência disso, se agrava a atitude para como os israelenses, sendo inadmissível, claro, tal abordagem. Seria injusto acusar a nação inteira pelas ações erradas levadas a cabo pelo seu governo”.
Conforme estimativas de sociólogos, a situação mais alarmante se verifica na França. Ali, os judeus locais se defrontam com frequentes atos de violência. A onda de violência tem vindo a crescer após o assassínio de crianças judaicas em Toulouse. Os ânimos antissemitas são visíveis em Universidades francesas, disse à Voz da Rússia a presidente da União de Estudantes Judaicos na França, Sacha Reingewirtz. “Muitos alunos judeus não usam os chapéus tradicionais para evitar insultos. Uma demonstração propositada de símbolos religiosos pode provocar rixas tanto na rua, como no metrô. Tais símbolos se tornam a causa de muitos conflitos e ofensas”.
Ora, quem será o responsável pela reincidência de ânimos antijudaicos? A mídia não deixa de acusar disso os partidos da extrema-direita. Mas nem todos acreditam nessa hipótese: apenas 20% dos interrogados concordam com tal avaliação. A mesma percentagem considera que os ânimos antissemitas estão sendo fomentados pelas forças da extrema-esquerda. Um terço dos indagados atira a culpa aos muçulmanos. Em sua opinião, a imigração islâmica descontrolada veio “importar” o ódio aos judeus em países relativamente pacatos, como, por exemplo, a Dinamarca.
No entanto, tudo leva a crer que a questão do antissemitismo nos países da UE tem sido exagerada por alguns políticos. É verdade que os partidos de direita e nacionalistas estão ganhando terreno político, sendo, contudo, confrontados por seus adversários, opina Aleksandr Kamkin, do Centro de Pesquisas Germânicas do Instituto da Europa.
“Acho que esta doença foi superada ainda em 1945. Se olharmos para os partidos mais extremistas, como o Partido Nacional-Democrata da RFA, o Partido Popular da Suíça, a Frente Nacional da França, vamos ver que eles não transmitem ou fazem propaganda de ânimos antissemitas. Claro que alguns políticos de outros partidos, que fazem a carreira profissional com slogans míticos de luta contra o fascismo, – seja francês, alemão, suíço, polonês – tentarão fazer agudizar este problema. Mas, por trás disso, está um afã de obter, por meio de declarações histéricas, dividendos políticos”.
Convém acentuar que as autoridades europeias, na sua maior parte, estão a par do problema. Em agosto, a chanceler da RFA, Angela Merkel, apelou a uma maior vigilância em relação aos extremistas que estão divulgando informações distorcidas sobre os factos históricos, negando, por exemplo, o Holocausto. Na Hungria, o primeiro-ministro Victor Orban, indignado com as ofensas antijudaicas durante os jogos de futebol, declarou a guerra ao antissemitismo.
Resumindo, pode dizer-se que o problema existe, mas não vale a pena falar de uma “onda de antissemitismo”. Hoje, a situação se mantém sob controle.