É sabido que cinco cidadãos turcos, considerados assistentes do sírio Hatam Kassap, acusado de comprar as substâncias em causa, foram postos em liberdade logo depois da detenção. Conforme se apurou, os componentes para a produção de armas químicas não eram vendidos com esse destino. Mas a acusação afirma o contrário. O libelo acusatório, de 132 páginas, prevê a pena de 25 anos de prisão para o sírio Hatam Kassap e penas de 15 anos - para os cinco cidadãos da Turquia.
O procurador de Adan chama atenção especial para a noção de "terrorismo". Na acusação faz-se referência concreta aos atentados terroristas cometidos pela Al-Qaeda no território da Turquia no período entre 2003 e 2010, destacando que os alvos principais destes atentados foram as missões diplomáticas e organizações comerciais dos EUA, Israel e Grã-Bretanha.
O documento realça ainda que os grupos radicais de cariz salafita acabaram por criar na Turquia uma sólida rede de "canais" necessários para a realização de atentados. O procurador cita exemplos de apelos, preconizados e divulgados por estes grupos extremistas, no sentido de travar ações militares na Síria e no Egito. Também se trata da preparação, pela Al-Nusra, de vias de realização de atentados bombistas em larga escala.
Além disso, houve informações de a Al-Nusra e o grupo extremista Ahrar-al-Sham terem tentado adquirir gás sarin em grandes quantidades, gás que afeta o sistema nervoso, e comprado alguns compostos químicos usados na produção de substâncias tóxicas.
A acusação considera que os suspeitos estariam ligados aos grupos de extremistas próximos da Al-Qaeda e de seus líderes. O libelo põe em ênfase que 15 toneladas de armas químicas podem aniquilar todos os seres vivos num raio de ação de 62,5 km. As conversas telefônicas, mantidas pelos suspeitos, indicam terem sido "encomendadas" 10 toneladas. Os dados obtidos por peritos dão conta de os componentes poderem servir ainda para o fabrico de gás paralisante sarin.
"As alegações de os suspeitos não terem conhecimento quanto ao eventual uso destes componentes perigosos carecem de fundamentos e não correspondem à realidade. Isto se tornou claro nos depoimentos prestados", assinala a acusação.
O sírio Hatam Kassap aceitou as acusações e até revelou informações sobre a sua relação com o grupo islamita radical:
"Tenho nacionalidade síria e sou oriundo de Homs. Há muitos anos, o meu pai foi condenado à pena de morte na Síria e a minha família se viu obrigada a emigrar para a Arábia Saudita. Foi ali que nasci. Mais tarde, devido à guerra civil que eclodiu na Síria, passei a ajudar os grupos oposicionistas. Foi então que conheci Ebu Walid, um dos altos dirigentes da Ahrar-al-Sham. Por encargo dele, parti com destino a Antakya, uma cidade no sudeste da Turquia, onde aluguei um apartamento. Após a minha chegada, os grupos de oposição ao regime sírio entraram em contacto comigo. Alguns exigiram medicamentos e ajuda humanitária, outros - materiais de uso militar."
A polícia, ao receber informações sobre as tentativas de compra de materiais usados na produção de substâncias tóxicas, empreendeu, em 28 de maio, uma operação especial, tendo detido 11 pessoas, cinco das quais foram soltas após o interrogatório. A mídia informou que lhes foram apreendidos ainda 2 kg de sarin, armas e munições, bem como confiscados os documentos e dispositivos de memória eletrônicos. Segundo investigadores, a substância apreendida não foi o gás sarin, mas sim um líquido anti refrigerante. Os resultados das pesquisas de laboratório não foram tornados públicos, o que obrigou a imprensa local e estrangeira a se inclinar para a versão de gás sarin. O periódico turco Vatan escreveu que os detidos tinham preparado atos bombistas na base militar de Incilrik em Adan e na província Gaziantep, que faz fronteira com a Síria. Como as substâncias apreendidas acabaram por ser diferentes do gás sarin, cinco turcos, agora acusados, foram postos em liberdade. Entretanto, o jornal Radical apontou na véspera que estas pessoas de origem turca regressaram à Síria onde teriam aderido à Frente Al-Nusra. Pelos vistos, esta história não acaba aqui.