quarta-feira, 7 de março de 2012

Wikileaks – RÉUS EM REGIME DE TORTURA

Wikileaks – RÉUS EM REGIME DE TORTURA
Nos bastidores do processo contra o Wikileaks
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admin
– 07/03/2012Posted in: Capa, Mundo

Advogado de Julian Assange revela como EUA pretendem incriminá-lo; por que torturam seu suposto “cúmplice”; que lhe ocorrerá, se extraditado
Entrevista a Paul Jay, The Real News Network | Tradução: Vila Vudu
Um dos episódios que marcaram o cenário internacional nos últimos dois anos pode estar chegando a um ponto crucial — e perigoso. Acossado desde abril de 2010 pela vazamento, via Wikileaks, de documentos secretos que documentam atividades criminosas ou armações diplomáticas constrangedoras, o governo dos Estados Unidos está agindo para dar o troco. Seu objetivo é silenciar o site que fez as revelações, encarcerando o jornalista que o anima: Julian Assange.
Os dois movimentos mais recentes desta trama ocorreram nas últimas semanas. Em 22 de fevereiro, o soldado norte-americano Bradley Manning, detido desde maio de 2010, foi indiciado, nos EUA, por “ajuda ao inimigo” e 21 outros supostos crimes. É acusado de ter sido a principal fonte do Wikileaks. Pode ser condenado, por uma corte marcial, a prisão perpétua… mais 150 anos. Desde que o prenderam, submeteram-no ao que um relator da ONU para Direitos Humanos chamou, hoje, em Genebra, de “tratamento cruel, desumano e degradante”. É provável que as condições extremas que lhe são infligidas visem obter algo muito específico.
Em Londres, trava-se outra batalha jurídica. A Suprema Corte do Reino Unido deve decidir, nos próximos dias, se autoriza a extradição de Julian Assange para a Suécia — onde é acusado de estupro, ao que tudo indica sem fundamento (veja nossos textos: 1 2). A decisão atual, emitida em novembro do ano passado, é desfavorável ao jornalista. Se confirmada, é provável que ele permaneça em solo sueco por pouco tempo. Estocolmo e Washington mantêm um acordo mútuo de extradição com escopo amplo, o que facilitaria em muito transferir para território norte-americano a principal referência do Wikileaks.
Na entrevista a seguir, concedida à rede alternativa de TV The Real News Network, Michael Ratner, advogado do Wikileaks nos EUA, estabelece os nexos entre os dois fatos. Ele conta que em Alexandria, estado da Virgínia, já há um júri formado para julgar Assange. Considera que as torturas e ameaças impostas a Manning podem significar uma tentativa de induzi-lo a incriminar seu suposto parceiro nas ações de “ajuda ao inimigo”. O grande objetivo seria silenciar o site que vazou segredos militares e diplomáticos, submetendo seu criador a um castigo simbólico.
Ratner oferece dados expressivos sobre as situações a que Manning foi submetido — tanto após sua prisão quanto antes, enquanto soldado gay e fisicamente desprotegido, no exército. As revelações convidam a pensar sobre o próprio papel dos Estados Unidos. No pós-II Guerra, o país articulou com êxito a defesa da democracia e das liberdades  civis, manejando-as como escudos contra o avanço da União Soviética. A partir dos anos 1970, apresentou-se como polo da diversidade e da tolerância, num mundo que buscava alternativas à uniformidade e aos padrões rígidos da era industrial. Que trágica decadência os terá levado a abrir mão de duas bandeiras tão sensibilizadoras, pela defesa de seus interesses mais imediatos? E quem poderá assumir, agora, a defesa dos valores abandonados?
Michael Ratner é presidente emérito do Centro pelos Direitos Constitucionais (CCR, em inglês) em New York e presidente do Centro Europeu pelos Direitos Constitucionais e Humanos em Berlim. Atualmente, trabalha como conselheiro para questões legais nos EUA, contratado por Wikileaks e Julian Assange. Ratner foi, junto com o CCR, o primeiro a denunciar a ilegalidade da detenção de suspeitos na prisão de Guantanamo e continua a trabalhar pelo fechamento daquela prisão. Foi professor da Faculdade de Direito de Yale e da Faculdade de Direito de Columbia, e presidente da Associação Nacional de Advogados. É autor de vários livros, dentre os quais Hell No: Your Right to Dissent in the Twenty-First Century America [Proibido! O direito de discordar, nos EUA do século 21] e Who Killed Che? How the CIA Got Away With Murder [Quem matou Che? Como a CIA escapou de responder por aquele crime]. As opiniões de Ratner nessa entrevista são opiniões pessoais, e não envolvem as organizações das quais participa. Seu entrevistador, Paul Jay, é editor senior de The Real News Network, uma TV alternativa canadense-norte-americana, que transmite por internet programação ligadas às lutas por outros mundos possíveis. Vale a pena conhecê-la. (A.M.)

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